quinta-feira, 23 de junho de 2011

A Língua

"A língua é minha pátria".

Ontem uma brasileira me perguntou se eu gostava de viver em Viena e claro que respondi que sim, mas que pensava em voltar pra meu país. Viena é uma cidade linda, segura e organizada, mas, definitivamente, "minha casa" não está aqui. Por outro lado, vivendo no estrangeiro, lembrei da canção do Caetano Veloso que diz "a língua é minha pátria". Sim, interessante como nos sentimos num pedacinho do Brasil quando estamos reunidos com nossos conterrâneos, não importando se do Sul, Sudeste, Norte, Nordeste ou Centro-Oeste do país. Somos todos "brasileiros" no mundo.
Um pensamento puxa outro e lembrei da "polêmica" há tempos atrás, no Brasil, sobre um livro adotado pelo sistema de ensino público, em que a professora-autora defendia erros crassos de Português na língua falada, linguagem do cotidiano, com como algo aceitável. Na minha época de escola, nas aulas de Literatura, aprendi que existem certas construções gramaticais erradas que podem ser aceitas dentro de um contexto de licença poética, seja por manter uma rima, seja construir uma cacofonia ou seja pra chocar mesmo, chamar a atenção - como na música da banda dos anos 80, Ultraje a Rigor, "a gente somos inutéis".
Eu não li o livro e acompanhei apenas os fatos pela mídia que nem sempre nos apresenta todos os lados da questão, mas a justificativa dada pela professora era de que o livro "foi feito para aquele que pode ter sido discriminado por falar errado" [Estadão]. Então a solução para isso seria aceitar o errado como admissível e não corrigir o modo de falar de acordo com a gramática portuguesa (e isso significaria discriminar).
É verdade que, independente de escolaridade, cometemos, sim, erros gramaticais diários seja de concordância ou de escrita, mas alguns ainda tem a chance de se corrigir ou serem corrigidos. Não sou especialista em linguística, mas acredito que devemos respeitar a nossa língua acima de tudo (porque ela representa nossa pátria e daí estamos respeitando nossa Pátria), não por elitismo ou superioridade, mas apenas para não perdermos nossa identidade.
A língua é viva e há muitas construções da língua falada que nã correspondem à língua formal, mas que não perdem seu sentido como "tá", "tão", "né" e por aí vai. A inclusão de certas palavras estrangeiras também. Isso acontece com várias línguas no mundo. Mas daí a aceitar as sentenças como "os livro é popular" ou "nós pega o peixe", porque é assim que se ouve na língua popular e porque a informação dada é compreendida, parece, no mínimo, um retrocesso. Então o sistema de ensino brasileiro quer aceitar o errado do que melhorar a educação?! Em vez de oferecer uma educação de qualidade, investir no sistem educacional, vamos admitir como "normal" o fracasso de alunos semi-analfabetos que deixam a escola cedo (evasão escolar) ou ainda outros que viram mestres e ensinam seus erros pras futuras gerações (baixa qualidade de ensino) e por aí vai... num ciclo vicioso que por fim apresentará uma língua pobre e enfraquecida... Triste.
O fato é que o livro não foi escolhido por uma pessoa ou tirado de dentro de um saco ao acaso. Ele foi selecionado dentro de um processo de escolha feito por várias universidades do Brasil. Assustador! Ainda mais quando se fala em unificação do português de Portugal e do Brasil, com essa polêmica estamos criando um abismo! Embora existam especialistas em linguística que defendem esse abismo e total separação das línguas. Aí, é outra estória...
Bem, na minha experiência prática, a gente aprende quando erra e é corrigido. Se eu falar uma sentença errada no meu dia-a-dia, acho difícil que eu a corrija na linguagem formal. Claro que repetirei o erro em qualquer situação. Então, procuro me corrigir, verificar a escrita de uma palavra que há muito tempo não escrevo, verificar as várias possibilidade de uma regra gramatical. Bem, o mesmo que faço com o inglês, o francês ou alemão, línguas que uso, estudo ou preciso no meu dia-a-dia.
Talvez eu seja conservadora nesta questão. Acredito que a educação nos proporciona ver o mundo com olhos de descobridores de possibilidades. Lembro da minha avó que não teve educação formal e fala intuitivamente a linguagem popular. Nunca a discrminei por causa disso nem me senti superior. Apenas percebi que a escola tinha me dado uma (in)formação a mais, permitindo que eu idenficasse a diferença entre as linguagens, entre continuar descobrindo coisas novas na escola ou viver na ignorância, ou seja, no desconhecimento das coisas.
E vamos refletindo...

3 comentários:

  1. Oi Ana! Gostei do seu blog! Claro que nao li tudo, pq ja tens mtos posts, mas foi legal encontrar outra brasileira blogueira na Áustria. :) Um abraco.

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  2. Querida
    Que post inteligente. Amei a forma como vc coloca a questão. Quando vou para o interior e ouço meu povo falar errado daquele jeito, não me choca, mas fico feliz por ter tido a oportunidade de saber um pouco mais que eles.
    Parabéns pelo post! Maravilhoso!
    Beijos

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  3. Olá Ana, cheguei aqui através do Mundo Pequeno, excelente texto, excelentes ponderações sobre lar, língua e educação!
    Márcia

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